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Uma coisa que sempre se reclama é que as adaptações de livros para o cinema são incompletas ou malfeitas. Pela primeira vez, descobri um caso em que isso aconteceu para melhor. O filme é conhecidíssimo, a ponto de seu personagem principal ter virado adjetivo de valentão. Estou falando de "Rambo - programado para matar", lançado em 1982. Como se explica o sucesso estrondoso de "Rambo"? Está certo que Sylvester Stallone já era um ícone mundial devido a Rocky, mas cá pra nós, o talento cênico do rapaz não seria suficiente para atrair multidões. Qual foi o ingrediente mágico, então?
"Rambo" trouxe um novo ingrediente, que foi a difícil adaptação dos veteranos da guerra do Vietnã. Essa guerra, resultado da inconseqüência dos Kennedy, trouxe morte e desajustes para milhares de americanos que foram forçados a lutar por algo que não tinha absolutamente nada a ver com eles. E ao voltar para casa, ao invés de ser recebidos como sobreviventes do inferno, receberam a culpa que era devida aos políticos. O que diferencia "Rambo" de outros filmes sobre veteranos do Vietnã? Enquanto "Franco-atirador" e "Apocalipse now" narram fatos que ocorreram no palco da guerra, "Rambo" mostra o lado negro da volta para casa. Preconceitos, dificuldades de adaptação, traumas de guerra. Junte-se a isso o exercício do poder com arrogância e tem-se a história de "Rambo". E onde foi que o filme divergiu do livro? Ambos mostram a história de um veterano da guerra do Vietnã que vaga pelo seu país. Ao passar por uma pequena cidade, é considerado um vagabundo pelo xerife local e termina preso só por insistir em comer. Na prisão, os guardas o atormentam sem saber que estão reavivando situações em que passou preso por vietcongues. Ao ultrapassar esse limite de consciência, Rambo foge da cadeia, sendo perseguido pela polícia até uma floresta próxima. Derrotando a força local, Rambo continua a ser perseguido pois devido a queda de um helicóptero, um dos policiais morre.
Isso nada vale para o xerife, ele próprio um herói da guerra da Coréia, que não admite interferências em seu trabalho. O filme então cresce para o embate final que acontece dentro da própria cidade que hostilizou Rambo.
O livro conta uma história única. O personagem principal é um herói trágico, que independente de sua culpa, termina sendo o flagelo de Deus naquela cidade que ousou enfrentá-lo. A contagem de mortos no livro de David Morrel chega a 250, enquanto que no filme, a única morte ocorre por acidente, do policial que cai do helicóptero. No final do livro, Rambo e o xerife morrem no confronto final, encerrando a tragédia. Qual a razão da história ter sido suavizada no cinema? O roteiro foi co-assinado por Stallone, que também vetou as cenas mais sombrias do filme. Seja lá qual tenha sido a motivação, o Rambo do cinema ficou mais humano, mais próximo do espectador e por incrível que pareça, mais verossímil do que a máquina destruidora que aparece nas duas continuações. Explico: é mais fácil você indentificar-se com uma pessoa injustiçada pelo sistema do que com alguém que consegue matar todo um pelotão de comandos russos. Seja como for, "Rambo" teve uma química perfeita, do roteiro levado às telas, com o elenco escolhido e as locações. Brian Dennehy, como o xerife durão, apresenta uma de suas melhores performances no cinema, enquanto que Stallone, com todas as suas limitações, faz um John Rambo melhor do que em "A missão" e "O resgate". No elenco de apoio, Richard Crenna conduz com elegância o seu coronel Trautman, enquanto que um novato de cabelo vermelho prenunciava o sucesso que faria em "Nova York contra o crime" - David Caruso.
O DVD poderia ser melhor, já que a versão americana trazia comentários do autor do livro, Making Of e notas de produção e elenco, enquanto que a versão tupiniquim veio totalmente "pelada". Contudo, só ter mantido o formato de tela de cinema já foi lucro, considerando-se que a distribuição no Brasil foi feita pela Flashstar. O som é mono, como a edição americana. Para os que gostam de curiosidades, existiu realmente um John Rambo que morreu no Vietnã em 1969 com vinte e quatro anos. Fiz essa descoberta por acaso ao folhear a lista do Memorial dos Mortos no Vietnã, em Washington, DC. "Rambo" pode não ser o melhor filme de protesto contra a Guerra do Vietnã e suas conseqüências. Também não é o mais agressivo filme de ação estrelado por uma montanha de músculos. O filme foi um marco no cinema de ação, gerando seqüências, cópias, paródias, etc. Talvez a sua maior qualidade esteja no equilíbrio do personagem romântico/ quixotesco com o ideal heróico moderno que habita em nosso inconsciente. Recomendo, tanto aos saudosistas quanto aos mais jovens. Newton Ramalho Júnior
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